Os projetos governamentais e não governamentais de apoio à gestão de territórios e incremento econômico. Embora representem intervenções importantes para as comunidades indígenas, cada vez mais os programas de apoio governamental ou não, tem funcionado como ação indutiva, resultando em mobilização de esforços, diagnósticos e soluções com baixa aderência aos "projetos societários" das populações. Significa dizer que as demandas elevadas à categoria de projetos e linhas de ação, têm limitada conexão com o quadro geral da realidade e com acento nas necessidades fundamentais e com limitada representação dos interesses coletivos e estratégicos de um grupo e seu território.
Zoneamento como instrumento de leitura e equalização de diferenças
Importante considerar que mesmo em períodos mais recentes quando o poder público dispõe de recursos tecnológicos que lhe permitiria produzir imagens mais apuradas sobre os complexos das relações socioeconômicas e etnoambientais de territórios de significativa presença de populações tradicionais, boa parte dos elementos dessas relações tem recebido baixa representação nos diagnósticos e planos de desenvolvimento regional, essencialmente por conta dos instrumentos utilizados pelas políticas públicas que possibilitem maior aderência destes às realidades e aos interesses dos seus beneficiários e protagonistas locais.
Os elementos de representação própria ou interpretações que as próprias comunidades humanas tradicionais fazem sobre sua territorialidade e sua interações com o meio ambiente e os recursos naturais têm baixa representação nas informações que dão suporte ou origem às demandas por ações externas.
Tanto isso é provável que as aplicações de Zoneamento Sócio-Econômico e Ecológico (ZEE) dispõem de baixo referencial de conhecimento e tratamento das realidades internas dessas áreas especiais. E não as tendo preferem promover "salto" sobre essas realidades. Ou seja: as realidades etnoambientais e os modelos próprios de gestão territorial e dos recursos ambientais não são objeto de tratamento e representação nas metodologias de ZEE praticadas no Brasil.
De outro lado, experiências comunitárias emergentes começam a ganhar espaço no debate público e estão reconduzindo novos referenciais, novos universos de informações a partir de processos participativos – metodologias de zoneamentos e "inventários" participativos.
A etnoecologia na abordagem de cenários para projetos de suporte ao desenvolvimento econômico de comunidades indígenas:
Para Frechione et al. (1989), a Etnoecologia pode ser definida como as percepções que os indígenas têm das divisões 'naturais' no mundo biológico e relacionamentos terraplanta-animal-humano. Essas características ecológicas cognitivamente definidas não existem isoladamente; assim, a etnoecologia também deve tratar de percepções dos interrelacionamentos entre 'divisões naturais' (Posey, 1983).
Essas percepções formam uma moldura para as interações pessoais com o ambiente natural. Como Frake (1962) indica, o propósito da investigação etnoecológica é descrever o meio ambiente como a própria comunidade o interpreta, de acordo com as categorias de sua etnociência.
Independente de alguém escolher referir-se a este assunto como etnoecologia ou como ecologia histórica, existe um consenso de que o estudo dos inter-relacionamentos homem meio ambiente é complexo, e demanda uma abordagem interdisciplinar 'holística'. No contexto amazônico, existe variação considerável nas relações práticas entre populações indígenas e seus respectivos ambientes, assim como existe variação nas percepções e compreensão que as populações têm dos mesmos.
Também varia grandemente o conhecimento e o entendimento que pessoas de fora das comunidades têm a respeito da etnoecologia desses povos. Alguns grupos (por exemplo, os Ka'apor e Kayapo) já foram submetidos a estudos detalhados e extensos, e é razoável dizer que agora são bem 'compreendidos' por pessoas de fora da comunidade, embora, mesmo nesses casos, haja, sem dúvida, muito mais para ser aprendido. Enquanto isso, existem várias outras populações sobre cuja etnoecologia até agora quase nada de significativo foi registrado.
A variabilidade das relações entre as populações indígenas e seu meio ambiente na Amazônia, por exemplo, se origina, em parte, na diversidade daquele ecossistema. Contrariamente à percepção de muitas pessoas, que vêem a região como uma grande área homogênea de floresta de terras baixas, a Amazônia é um mosaico complexo de florestas de terra firme, savanas arbóreas, buritizais, vários tipos de caatingas com vegetação lenhosa, florestas inundadas ou igapós, florestas de várzea, vegetação secundária e outros habitats antropogênicos.
Dentro de cada um desses habitats, a composição de espécies e a diversidade variam grandemente de uma região para outra. Além disso, sobreposta a toda essa variabilidade está a diversidade de culturas das populações indígenas que moram na Amazônia.
Um ponto fundamental é que a etnoecologia de qualquer população indígena não é, e nunca foi, um fenômeno estático. Pelo contrário, as populações da Amazônia são notáveis por sua adaptabilidade e pela vontade de aprender novos usos para seus recursos naturais.
Além disso, a 'base de recursos' de informação etnobiológica transmitida oralmente e a 'base de recursos genéticos' de plantas cultivadas ou animais de criação sofreram um processo contínuo de evolução, enquanto novas descobertas eram feitas e novas informações, materiais ou espécies eram intercambiadas com populações vizinhas.
O etnozoneamento participativo como uma ferramenta de conhecimento e aderência socioambiental de projetos em terras indígenas.
Um "levantamento etnoecológico" ou "etnozoneamento" elaborado e executado num determinado território indígena, se conjugado a elementos metodológicos e meios operativos adequados, pode fornecer, potencialmente, um quadro quantitativo muito detalhado (nível micro) da disponibilidade de recursos naturais, bem como das interações com o meio ambiente e das percepções do mesmo pelo grupo.
Nesse caso é esperado que este inclua, por exemplo, o mapeamento (geo-referenciado) detalhado de recursos e a produção de dados razoavelmente abrangentes sobre o uso de plantas e animais, recursos hídricos, alimentos, etc.
Segundo Plácido C. Júnior (2003), levantamentos mais gerais, do tipo esboçado na proposta metodológica para o etnozoneamento aplicado no território do povo indígena Xerente, com recursos disponíveis mais limitados, devem inevitavelmente abordar os vários elementos de um levantamento etnoecológico em nível mais "macro" (qualitativo).
Assim sendo, por exemplo, enquanto o componente etnobotânico de um estudo em "nível micro" pode fornecer listas detalhadas de espécies de plantas, seus nomes comuns, usos, associações com habitats e quaisquer outras informações referentes a elas, um estudo em "nível macro" necessariamente enfoca os tipos principais de vegetação na área, fornecendo informações detalhadas sobre as espécies de maior importância cultural, social ou econômica para um determinado grupo populacional.
Embora a etnoecologia seja um campo muito complexo, por razões práticas o enfoque dos levantamentos deva ser mantido nos aspectos da interação homem-ambiente que são de maior relevância para o futuro dos povos indígenas inseridos num determinado território.
De modo geral o processo metodológico de implementação do etnozoneamento as seguintes questões devem ser claramente explicitadas como pontos chaves:
O levantamento deve forneçer informações funcionais e úteis para as próprias comunidades indígenas e também para não-especialistas. Ele deve, portanto, ser mantido em um nível prático e compreensível, com mínima referência a teorias e hipóteses acadêmicas pouco relevantes ou mínima inclusão das mesmas. Todos os resultados deverão ser apresentados graficamente e de forma clara.
Os resultados do levantamento devem ser comparáveis entre si. Assim, embora inevitavelmente existam diferenças no conteúdo dos levantamentos devido às suas circunstâncias diferentes, é importante que a estrutura esboçada nesta metodologia seja seguida tanto quanto possível;
A participação indígena no processo – instrumentos de decodificação de informações.
Os indivíduos da comunidade local (aldeia ou aldeias implicadas) são integralmente participantes do estudo, ao invés de serem apenas objetos de investigação. Elas tomam parte no planejamento do estudo, na coleta de dados, na análise das descobertas e nas discussões de como esses resultados podem ser aplicados em benefício da comunidade.
As pessoas de fora possuem formações acadêmicas variadas, assegurando uma perspectiva multidisciplinar. A relação entre todos os participantes – locais e externos – é igualitária, evitando uma abordagem hierarquizada, ou de cima para baixo, comum em muitas pesquisas.
Um pequeno grupo de pessoas locais é selecionado para ser entrevistado de forma semi-estruturada. Uma ampla variedade de tópicos pode ser coberta de forma preliminar, permitindo uma visão abrangente de como a comunidade, como um todo, funciona.
As medições utilizadas são qualitativas ao invés de quantitativas, e poucas ferramentas estatísticas são utilizadas na interpretação dos resultados. A ênfase é colocada em técnicas altamente visuais e mentais, que os membros da comunidade executam entre eles mesmos, freqüentemente em colaboração com pesquisadores externos – esboçando mapas para mostrar a classificação local de zonas ecológicas, criando gráficos que representam a quantidade de tempo que as pessoas dedicam às várias atividades produtivas, ou esboçando calendários que mostram flutuações climáticas sazonais, para dar alguns exemplos.
A análise dos dados é executada no próprio ambiente da comunidade, o que permite aos participantes modificar os seus métodos no local da ação e completar quaisquer dados que estejam faltando depois do trabalho de campo.
Os participantes indígenas desenvolverão uma sólida compreensão do projeto, que eles provavelmente não obteriam se apenas acompanhassem visitas às suas próprias comunidades. Isso não apenas significará que eles e suas comunidades provavelmente continuarão o processo depois da partida do resto da equipe, como também facilitará a coleta de dados durante o levantamento.
Se a equipe incluir pessoas que falam as línguas indígenas e são capazes de explicar o propósito do levantamento à comunidade, isso fará a coleta de informações úteis substancialmente mais eficiente quando a equipe chegar a uma nova localidade.
Além do mais, há um valor intrínseco na experiência que esses participantes ganharão por visitar e conversar com outros grupos indígenas durante os levantamentos. Esforços devem ser empreendidos para identificar esses participantes durante o workshop inicial.
As indicações de participantes adequados podem ser obtidas de pessoas e especialistas que trabalharam anteriormente na área (indigenista, antropólogos, técnicos de projetos, etc.), assim como dos líderes das comunidades. Sabe-se que a seleção desses participantes está sujeita a influência política nas comunidades, o que pode vir a complicar a decisão (e requerer uma certa dose de diplomacia).
A elaboração e a apropriação comunitária dos resultados finais – o instrtumento de gestão.
Tão importante quanto o desenvolvimento metodológico dos levantamentos das informações e a sistematização dos dados, também o será o processo de tratamento das informações com os participantes e sua "devolução" ao ambiente comunitário, através de instrumentos apropriados à sua interpretação e ao uso cotidiano por parte comunidade.
Uma boa audiência (reunião comunitária), com metodologia adapatada aos sistemas de comunicação de um grupo étnico poderá ter maior eficácia do que qualquer reunião expositiva. Assim também, como o trabalho de elaboração das informações tenha se fundado em procesos mentais, visuais e orais, importante que os produtos finais que sintetizam as informações, igualmente possam dar a maior preferência aos recursos visuais e orais.
Nesse caso os recursos de georeferenciamento (mapas) deverão ser produzidos de forma a viabilizar a mais facilitada visualização possivel, como também, o mais fácil e versátil manuseio por parte dos lideres comunitários.
Recursos de vídeos também demostram boa versatilidade, ao tempo que sugerem maior atrativo e dinâmica comunicativa.
O processo de apropriação das informações torna-se o elento essencial da produção do etnozoneamento e o será mais rico e proveitoso tanto quanto mais pessoas e maiores informações forem disseminadas e dominadas pelos líderes e todos os comunitários.
Nesse sentido os instrumentos de registro das informações, linguagem e referências de dados, produzidos para o universo científico, acadêmcio ou para instruir os procedimentos dos órgãos públicos e das instituições apoiadoras não devem ser confundidos com aqueles instrumentos comunitários. Não é incomum que nas comunidades onde tenham sido desenvolvido minunciosos levantamentos e tratamentos de informações, esse processo de transferência de informações de limitar à uma cerimônia de "doação" de um Compacto Disk (CD) de dados eletrônicos. E por limitada significância, na maioria das vezes, também se limitam a servir como peça decorativa de algum ambiente.
Importante ressaltar que o processo de audiência deve possibilitar, por metodologia e recursos de comunicação, momentos (nesse caso podendo ser em ciclos de reuniões nas aldeias) do detalhamento e transferência de informações aos membros da comunidade para a qual todo o processo foi pensado e destinado.
Como instrumento de domínio de informações, o levantamento de informações territoriais, socioambientais e das possibilidades econômicas apuradas pelo etnozoneamento se configura em um dos importantes instrumentos de gestão comunitária. Sendo isso verdade, compartilhar esse instrumento com a comunidade regional, autoridades dos órgãos públicos, instituições acadêmicas e a sociedade civil, pode ser, a juizo da comunidade, importante processo de empoderamento da mesma, especialmente na potencialização das suas interveniências nos diversos fóruns de deliberação e planejamento das políticas públicas regionais.
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